JACINTA DE SIQUEIRA, A DESCOBRIDORA DO OURO NO SERRO FRIO



Esta é, certamente, uma das mais notáveis personagens históricas de Minas. Encontrou os primeiros quatro vinténs de ouro nos garimpos primitivos do Ivituruí (nome da região do Serro, naquela época), sendo, portanto, a responsável pela própria fundação da cidade. Era escrava, mas tornou-se uma rica mulher, tendo vários filhos de pais diferentes, com os homens de maior prestígio social da vila.

Sabe-se que era africana, natural da Costa da Mina, e foi escravizada e trazida para o Brasil, certamente com algum conhecimento do garimpo, atividade comum em seu país de origem. Jacinta chegou às terras do Serro Frio, vindo da Bahia, já alforriada e trazendo escravos de sua propriedade, para a exploração de minérios nas áreas das recém-descobertas Minas Gerais.


. Veja o testamento deixado por Jacinta de Siqueira

Por volta de 1700, antes mesmo da chegada dos descobridores oficiais, foi a primeira a encontrar ouro no córrego dos Quatro Vinténs, que tomou este nome exatamente por causa da quantidade extraída na primeira bateiada vitoriosa da feliz Jacinta. Este fato mudou completamente a sua vida, transformando-a numa das maiores mineradoras, proprietária de terras e de escravos, no nascente arraial do Ivituruí.

Foi a principal construtora da antiga Igreja da Purificação (já demolida, na atual Pça. Dom Epaminondas), a primeira em madeira e taipa do Serro. Constituíu com orgulho uma grande família, deixando extensa lista de descendentes.


Casa Grande e Senzala

Gilberto Freyre, em "Casa Grande e Senzala", baseando-se em anotações do Alferes Luís Pinto, destaca : "...É assim que Jacintha de Siqueira, "a célebre mulher africana que em fins do século XVII ou princípios do XVIII veio com diversos bandeirantes da Bahia" e a quem "se deve o descobrimento do ouro no córrego dos Quatro Vinténs e ereção do Arraial à Villa Nova do Príncipe em 1714", aparece identificada como o tronco, por assim dizer matriarcal, de todo um grupo de ilustres famílias do nosso país. "Os pais de todos os filhos de Jacintha Siqueira - acrescenta o genealogista do Serro - foram homens importantes e ricos e muitos figuram entre os homens da governança ..."

Novas informações

Outro pesquisador de genealogias serranas, Jorge da Cunha Pereira, revelou recentemente duas novas e interessantes informações sobre esta personagem. Primeiro, os registros de uma neta de Jacinta (Vitória Gonçalves de Siqueira). Nascida a 26/set e batizada a 12/out/1747, filha de Caetano Marcos e de Josepha Gonçalves de Siqueira, era neta de Jacinta e do Capitão Antônio Gonçalves de Oliveira. Segundo, uma lista de escravos de Jacinta, em 1718: Ambrózio Angola, José Cabra, Miguel Mina, Antônio Mina(1), Francisco Mina, José Mina, Antônio Mina(2), Joana Mina, Leonor Mina, Inácia Mina. Jacinta assinou a declaração de propriedade dos escravos em cruz, demonstrando ser analfabeta. A lista revela também que a mineração continuou sendo sua principal atividade, pelo menos até 1718.


As duas rainhas negras do Serro Frio
Jacinta de Siqueira "reinou" no Serro até sua morte, em 15/abr/1751, deixando testamento que ainda se encontra nos cartórios do Serro e que agora publicamos, para acesso de todos. Interessante, que o final de sua vida coincide com o início do "reinado" de Chica da Silva. Poder-se ia dizer que "rainha morta, rainha posta". Uma, a rainha do ouro, a outra, a rainha do diamante.

Fazenda da Siqueira

Instalada bem nos arredores da cidade, às margens do Córrego da Siqueira, nesta fazenda viveu Jacinta de Siqueira. A propriedade ainda conserva belos exemplares de arquitetura rural, com o casarão em estilo colonial e outras construções (currais, cocheiras, coberta, casa de queijo, casa de vaqueiro, etc). Com 60 alqueires de pastagens e de mata, a fazenda se dedica à criação e ao comércio do gado leiteiro “girolando”. Durante alguns períodos, há produção também do famoso “Queijo do Serro”. Nos arredores, magnífica vista da Serra do Espinhaço, com a Pedra Redonda e o Pico do Itambé. Localização: às margens da BR-259, a 4 Km da cidade, na saída para Sabinópolis e Guanhães.


Obs. sobre a imagem: A pintura de Rugendas, que pedimos licença para utilizar aqui, no início da página, bem que poderia ser uma imagem de Jacinta, em suas vestimentas senhoriais, sentada ao lado de um baú que representaria todo o ouro que acumulou, e conversando descontraidamente com uma vendedora de frutas, talvez uma de suas muitas escravas. A mulher com a criança às costas lembra bem as serranas (como as da Mombaça), que até hoje fazem seus cortejos diários pelas ruas da cidade, vendendo os legumes e as deliciosas frutas de época. Como moldura da paisagem, as bananeiras, os coqueiros e as montanhas do Serro.

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